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Terezinha Pereira


Terezinha Pereira nasceu em Pará de Minas, MG, em 1948. É formada em Letras. Desde 1997, tem contos e poemas publicados em coletâneas editadas em diversos estados do Brasil, em Portugal e na Itália. Publicou seu primeiro livro, o romance Em confidência, em 2000. No ano de 2001, teve publicada a tradução do conto de O. Henry, A última folha (The last leaf). Em 2004, publicou o Caderno Literário-1, contos, Se uma pianista numa noite branca… ,em 2007, o livro de contos Contemplação e em 2010, “A copa do mundo sumiu! - O caso dos sumiços da Taça Jules Rimet), infanto-juvenil 
 





CONTO DE JANEIRO
Terezinha Pereira

Morrer todo mundo um dia vai. Sempre soube disso. Mas, nesse dia a frase feita, dita, ouvida, reouvida, atingiu de pungente meus ouvidos. Ou a mente. Ou a razão. Não fosse o coração. Essa história de morrer. Ser chorado por um bocado de gente que já está pensando em como deverá ser distribuído seus pertences, em quanto vale a casa onde você mora, em quem vai ficar com aquele relógio de ouro que havia sido do avô, e depois ser levado para a morada final dentro de um caixote de madeira todo fechado é de mexer com a idéia. Razão. Mente. Não fosse o coração.
O avô fabricava caixão. Já no fim da vida. Segundo marido da avó, perdeu fazenda e meia jogando. De tudo. Bicho, baralho, loteria. Jogou até a sorte grande. A única sorte grande saída na cidade em toda sua existência. Se sonhou ganhar, sonhou de sempre desde. Quando casou-se com a avó, de dote levou cinco filhos e fazenda inteira a menos de légua da cidade. A mulher nada levou a não ser dois filhos do primeiro marido e duas mãos danadas de boas para fazer quitanda. Enquanto o avô desapossava gado, pasto, roças de milho e de mandioca, a avó cuidava dos cinco filhos dele, de seus dois e das cinco filhas que vieram a ter. À família, deu de comer e de vestir com a mão na massa.
De pagar conta de jogo a avó estava até aqui. Nem deu crédito ao cambista quando ele chegou de tarde trazendo o bilhete de loteria encomendado pelo marido e que ia correr naquele dia. Impropérios foi o que fez o homem ouvir. Ainda fê-lo de sair de carreira, correndo na sua cola, sacudindo no ar a vassoura de arruda que usava para varrer o forno e que o deixava perfumado. Não me volta mais aqui com essa papelada que serve só pra atiçar fogo. Vem pedir pagamento. Vem que vê. Não devo e não pago. No dia seguinte, voltou o homem para contar que havia ficado rico. Ele e mais um amigo que havia partido com ele o prejuízo do encalhe do bilhete. Tanto dinheiro que dava para comprar aquela fazenda toda e mais umas três de tamanho igual ou maior. Que voltasse de carreira para trás foi o que a avó resmungou tirando a rodilha de carregar lenha da cabeça. Não queria ela saber o que ele podia fazer com tanto dinheiro. O que queria era deixar de pagar contas. Que o cambista desgraçado, que Deus me perdoe, desse meia volta e voltasse ligeiro pelo caminho de vinda.

No dia seguinte e durante mais um monte de dias depois daquele, a avó teve de escutar as lamentações do segundo marido, que nunca lhe havia despertado arroubamentos de amor nem friagem ao longo da espinha. Parou ele de afrontá-la no dia em que chegou com o tabelião com uma escritura de venda de um quarto da roça ao dono da banca de jogo do bicho. Era só avó assinar no xis. Conquanto não tivesse nada para pagar que fosse tirar da boca dos filhos. Também aquele monte de letra miúda, estava ela com mão suja de massa e ainda precisava procurar os óculos. Foi só o tempinho de esfregar as mãos no avental. O cambista rico mudou de cidade mas, demorou não tempo quase nenhum para chegar o marido outra vez com o tabelião levando-lhe para assinar escritura de mais um quarto da fazenda. Desta vez o polvilho de mandioca estava esparramado no terreiro para secar. Que morresse o cambista. Que ficasse com parte da fazenda, se quisesse podia levar o polvilho todo também, e os pés de mandioca do resto do terreno. Quereria ele também o gado que já estava magrelo, faltava homem na roça. Custava nada esfregar a mão no avental e dar um rabisco naquele papel da lei. Lei. A única lei que ela conhecia era a barriga dos filhos.
Era perder mais e jogar mais o avô. Fiado. Tinha ainda meia fazenda e um monte de jogos para jogar. Trabalho era só o de ir até a cidade todo dia vencendo quase uma légua de caminhar. O que nem deixava a avó irada. Pelo contrário. Homem que não compra do que comer carece de comer bem longe. Boca de menos.
Tivesse o avô fazenda inteira teria jogado exato tudo. A metade restante demorou pouco para ser dada quase de graça, no entender da avó de graça, ao cambista que enricara com a sorte grande. Queria ele empregar uns cobres na cidade natal e a plantação de mandioca estava uma beleza. O cambista mais novo e o dono da banca do bicho estavam por detrás do negócio. O avô ainda não devia era só a alma. Era o tempo da avó desenhar a firma no papel, que iria ser dona de uma casa de sete cômodos na cidade, bem próxima da igreja. Dessa vez a avó usou da esperteza de mãe. O marido estava entregando aos credores o teto que lhes cobria do sol, do vento e da chuva. Deixar os filhos todos ao relento, isso não iria permitir. Que o notário escrevesse naquele papel que aquela casa de sete cômodos na cidade tinha de ser dos seus sete filhos. Dois homens do primeiro casamento e cinco filhas mulheres que tivera com o avô. Os filhos do primeiro casamento dele já haviam caído na capital, cada um havia se arranjado, e não precisavam ter registro nenhum na escritura. Só assim que firmava com seu nome aquele papel. E que ficasse sabendo o notário, todos os cambistas do mundo e todos os bicheiros que o avô não tinha mais nada a vender. Nem a roupa do corpo, que ela fazia questão de deixar ele só com duas mudas. Nem o chapéu que ele tinha só um e vivia ensebado com cheiro de ranço. Murcho, não teve o avô outra alternativa. Ou morria com dois tiros do trabuco do zoobanqueiro ou se estrebuchava na ponta da faca enferrujada do bilheteiro.
Meio tempo os dois filhos homens da avó foram arrumar a vida na capital. Mesmo com a freguesia das quitandas aumentada, a comida da avó ficava cada vez mais escassa. Não completou mês inteiro na cidade e o avô estava de pés no chão. De tanto andar pra lá e pra cá, os solados do único par de botinas ficaram furados. Um dilema para a avó. Comprar um par de botinas novas para o marido ou agüentar o homem dentro de casa mexendo nas quitandas de encomenda, sentado numa cadeira em cima do fogão enrolando cigarro de palha, era por um na boca e começar a raspar o fumo para outro, tomando canecadas de café doce e ralo, isso ele fazia o dia inteiro.
Dizer que depois de dez dias ela comprou-lhe um par de botinas novas nem precisa. Que arrependeu-se deve-se. No dia seguinte ao que entregou-lhe as botinas novas, um tio torto que morava na rua de baixo morreu de repente. Havia acabado de comprar um par de botinas novas e não tinha filho, nem ninguém. Recebeu-as de herança, pudera, estava necessitado. A avó ficou injuriada de ver o marido no maior desperdício, com um par de botinas de reserva. Para bater pernas.
Demorou pouco, avó mandou chamar o vigário. Era primo do marido. Veio ligeiro, apanhando a avó de surpresa. Havia acabado de sair do banho, cabelos espalhados sobre os ombros. Quase uma indecência. O padre vê-la desse jeito. Não gastou dois tempos para juntar e torcer os cabelos com as mãos, abrir os grampos com ajuda dos dentes e prendê-los no coque eterno. Relembrou ao padre toda a situação. Havia se casado com um homem de posses e precisava sustentar um malandro. Que olhasse suas mãos, seus braços. Tudo cheio de marcas de amassar quitanda, varrer forno, catar lenha nos pastos. Que usasse de sua influência na cidade e arranjasse um serviço qualquer para aquele homem. As filhas já estavam trabalhando na fábrica, a mais velha já estava casada, a mais nova o vigário havia feito a esmola de arranjar-lhe uma bolsa no ginásio, e querendo Deus, breve iria virar professora de escola. Mas ela não agüentava mais trabalhar tanto e ver-se sem dinheiro nenhum, nem para consertar as goteiras que caíam em cima das quitandas, tinha de viver esparramando tabuleiros para cobrir os assados, cuidar para o forno não destemperar devido a água que lhe pingava por cima. Não havia colchão, gaveta, graveto de lenha, lugar qualquer onde o avô não achasse seu dinheiro sofrido. Além do mais, a casa recendia mofo.
Foi numa fábrica de óleo de algodão que o avô, beirando os setenta anos de idade, entrou pela primeira vez num local para trabalhar. Se não fosse, primeiro a insistência do vigário, depois a influência do próprio, a vida de trabalhador daquele homem não teria durado os dois anos que durou. Pediu conta. A desculpa foi o cheiro forte do óleo. Dessa vez a avó, que naqueles dois anos não havia colocado na mão um tostão no resultado do trabalho do marido, mas também deixara de ver seu dinheiro surrupiado, soube, ouvido de um passarinho, que seu homem havia pedido conta na fábrica. Foi explícita. Ele só entraria naquela casa se estivesse trabalhando, nem que fosse de coveiro. Não foi de coveiro que o marido arranjou trabalho. Foi numa fábrica de caixão.
Hoje, quando a frase dita que todo mundo um dia vai morrer bateu em mim como algo isento de incertezas, lembrei-me do avô. Minha mãe estava precisando de consertar um quarador. Pediu-me que passasse no local de trabalho do avô e dissesse a ele para vir a nossa casa com o martelo na hora do almoço, que ela havia feito umas bolas de carne. Ele faria o conserto e almoçaria com a gente.
Foi a primeira vez que entrei naquela fábrica. Um galpão enorme, pilhas de madeira por todo o lado. Quando o vi de longe fiquei a observá-lo. Era alto, magro, olhos verdes, rosto enrugado, cabelos ligeiramente cinzentos, lisos, nem curtos nem compridos. Usava terno preto. O de sempre. Para ir à missa. Para ficar na praça conversando com os amigos todas as noites. Para trabalhar. Com destreza pregava o tecido roxo na madeira. No tempo em que fiquei a observá-lo, dez minutos, meia hora, não sei, ele enfeitou duas tampas de caixões roxos com galões de seda amarelos. Sorriu quando avistou-me. Com sua voz rouca pediu que me aproximasse. Está vendo. Essa é nossa futura casa. Mostrou o tecido acetinado branco. Esse serve para cobrir caixão de anjinho. Naquela época, quase todo dia via-se enterros de anjinhos. Naquele momento pensei que um dia poderia vir a ser ocupante de semelhante caixa. Hoje, quando lembro disso, sinto um arrepio. Queria era ser deixada de indez. Quando terminou de cobrir mais um caixão, o avô olhou o relógio que ficava no alto da parede e acabava de dar onze badaladas. Poderia sair. Era seu horário de almoço. Caminhou em direção a chapeleira com o martelo na mão. Por motivo algum sairia na rua sem cobrir a cabeça com o chapéu. Ou sem levar pendurado no braço o guarda-chuva, que era janeiro e o veranico estava para acabar.
Naquela ocasião, com cinco, seis anos de idade, nunca havia eu ouvido falar sobre a paixão pelo jogo e sobre a aversão que o avô tinha pelo trabalho. Enxerguei a imagem de um homem dedicado. Andei com ele pela rua comprida, carro nenhum, bicicletas algumas, gente a pé de montão. Aceitou minha ajuda para reparar o quarador. Passou-me os pregos, que desse umas marteladas, ensinando-me como não acertar os dedos. Rejeitou o feijão e o arroz quando servido. Encheu o prato de farinha de mandioca e foi espetando com o grafo uma por vez as almôndegas ensopadas num molho de pimenta malagueta. Teria comido meia dúzia delas depois de passadas na farinha.
Desde aquele dia foram-se alguns janeiros. O avô habita sua morada definitiva não sei desde quando, quem sabe levado num féretro de brocado roxo, que ele próprio havia engendrado. Essa história de morrer. Não entende mente, nem razão, muito menos coração. Não fosse o coração.

 


Conto premiado :
1º lugar - XXIII Jogos Florais do Algarve/ 2001 - Portugal

Trechos de outros livros

A copa do mundo sumiu

Amor no tempo presente