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Maria Aparecida Vicenti Martins da Silva

 Nasceu em Florianópolis/SC no dia 16 de novembro de 1958. No entanto reside no bairro Barreiros, na cidade de São José/SC há 40 anos. Trabalha na Caixa desde dezembro de 1982, é casada e mãe de três filhos.
Formou-se em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina e atualmente faz Licenciatura para o mesmo curso.

Contato:
(48) 248-1144
maria.silva17@caixa.gov.br

 

Desvanecer

Parecias ser dócil, sem problemas, limpo na alma.
Só via virtudes por detrás daquela tua tristeza não conhecida.
Só via sorrisos, sem cansaços e sem dissabores.
Então te conheci e te vi arredio, misterioso, solitário.
Vi o teu lado obscuro tecer contra a vida.
Vi os teus lábios pronunciarem palavras frias e sem sentido.
Percebi, então, que tinhas uma parcela de culpa dentro deste teu viver.
Teu coração de homem clamava por justiça,
julgando todos aqueles que te feriram.
Mas escondeste os teus erros, as tuas falhas.
Foste culpado também e nada fizeste para reverter
o mal que já se instalara.
Te machucaste e pereceste.
Morreste para tudo, morreste para todos.
Morreste para o mundo, morreste para a vida.
Te entristeceste.
Sofreste.
E ainda sofres e clamas por justiça.
Mas não há justiça que possa ser feita.
Ela está em ti, na tua alma.
Só tu podes fazê-la e transformar este teu viver
em energia iluminada.
Só tu podes mudar este trajeto que te perturba,
que te entristece.
Só tu podes renovar os teus momentos.
Só tu podes cortar o teu silêncio e anunciar
ao mundo que estás livre da tua fragilidade,
da tua ânsia incontentada.
Só tu podes dar outro rumo a tua existência.
Só tu podes combater este mal que te assola
e delinear um novo caminho, sem mágoa e
pronto para perdoar.



No Silêncio

O silêncio da noite acalenta meus pensamentos
me transportando ao meu único sonho:
esperar em ti.
Sonho que insiste mostrar a tua face sem a tua presença.
Choro com medo.
Choro a tua ausência.
Choro este amor abstrato.
Choro e lastimo por estares assim, tão distante e tão perto.
E as recordações insistem em ficar como se fossem um filme inusitado.
E os meus segredos se mostram a mim mesma nesta noite vazia e silenciosa.
Ah! Poderia ser diferente!
Poderias estar aqui e agora e te tornares realidade sempre.
Poderias muito bem ser a chave do meu destino
e abrir para a vida este meu coração tão triste.
Na solidão da noite entrei clamando por ti
e perdi-me nesta eterna espera sem razão.
E percebi, nesta noite silenciosa, que o meu destino humano
é ter simplesmente uma humana recordação.



Sei

Sei que não faço parte dos teus sonhos,
da tua vida, do teu mundo.
Sei que não dou asas a tua imaginação poética.
Sei que não te desperto aquela paixão
avassaladora, que consome, que abrasa.
Sei que não tenho a graça que te renova
a cada momento.
Sei que não te inspiro sonhos cristalinos.
Sei que não sou estrela que fica luzindo
a tua vida.
Sei, muito bem, que não te inspiro
em momento algum.
Mas, por favor, deixe eu ficar
nesse lirismo que não liberta,
pois eu adoro essa tua natureza que
lastima-me e consola-me.



Utópica Liberdade

Quisera eu ter minha liberdade!
Mas, será que não sou livre?
Afinal, sou eu mesma a dona de meu próprio destino.
Mas, a distância entre o meu querer e o meu ser
agora é grande, não dá para retroceder,
não dá para mudar o que já está feito.
Não sou livre, não sou só.
Minha vida não é só minha vida.
Ela está enredada em outras vidas,
que tecem o meu destino.
Não posso violar este fado,
não posso me libertar.
Se me liberto, agora, me perco.
Porém, este meu vestíbulo me torna solitária.
Fico sem fim, sem começo.
As portas que quero abrir já estão cerradas.
Os limites que quero ultrapassar já não existem.
O encanto acabou e os sonhos se anularam.
Tudo ficou perdido num tempo desconhecido.
E a esperança de viver a liberdade desejada
vai, aos poucos, perdendo a força,
se transforma em sombras.
Meus desejos se calam nas horas que passam
e sigo, assim, este meu incessante destino.



Segredos

O que farei agora sem a tua presença?
O que espero de minha vida sem tua vida?
Só o meu pensamento se esconde em ti, agora.
Ele, sim, é amante de tua presença.
Ele pode violar tudo o que de concreto existe.
Ele é que pode me transportar aos meus mais indeléveis sonhos.
Sonhos escondidos na minha memória,
sonhos que são meus agora.
Sonhos melancólicos que se orientam apenas com a tua imagem.
Imagem que insiste em ficar,
sem sombras, sem perdas, sem máculas.
Imagem sucessiva que se renova a cada momento
e que se esconde em meu pensamento.
Deixo, então, pousar sobre mim
instantes vividos e jamais esquecidos.
Instantes que me fazem viver.
Instantes que fazem parte de meu pensamento.
Pensamento concreto de uma vida abstrata.
Vida que planta o limite do meu existir
dissolvendo os meus segredos.



Teus Olhos Azuis

Teus olhos são azuis,
de azuis tão profundos e tão intensos,
que mal posso expressar o que eles dizem.
Eles são qual estrela luzindo
esta tua vida tão só e tão aflita.
Mas eles são, também, fontes de esperança
para esta tua vida que sofre.
Eles são tão cristalinos que traduzem esta
tua ânsia de querer te encontrar sem nada pedir,
sem nada dizer.
Teus olhos azuis espreitam a nostalgia de momentos
vividos que foram engolidos pelo tempo.
Teus olhos azuis procuram os teus sonhos que
arderam no esquecimento.
Teus olhos azuis são solitários porque buscam
aquele amor ardente que não mais existe.
Teus olhos azuis espreitam a esperança solitária
de um querer mais do que querer.
Teus olhos azuis se perdem no silêncio procurando
a explicação para o que viveste.
Vencidos, teus olhos azuis se aquietam por
não teres resposta para este teu sofrimento.



Mar

Mar, doce mar que eleva minha alma.
Mar de águas claras que me levam a sonhos místicos.
Mar de ondas flutuantes que encarnam meu viver.
Mar! Doce mar de nostalgia, de saudade, de paixão.
Mar de amor!
Mar que me chama para em meu corpo ser amante.
Às vezes mar de abandono, de sombra, de frio.
Mas sempre mar que recebe, aflito, do vento,
um beijo de eterna amizade.
Mar que cintila meu corpo em efêmeras sombras.
Mar! Simplesmente mar que se extasia em sua
própria natureza e beleza.
Mar cândido que ultrapassa os mais indeléveis corpos.
Mar de ondas turvas, de passagens, de tormentas.
Mar de agito, sem cogito, sem espera.
Mar translúcido que faz reluzir meus pensamentos.
Mar de ondas que beijam as pedras, insistentes,
sem medo de tocá-las.
Mar que me abrasa num eterno abraço transparente.
Mar, que por simplesmente ser, ouve meus
pensamentos.



Achar-se

Às vezes a gente se perde
e não se encontra mais.
E este “se perder” se torna uma permanência.
Permanência porque se quer ficar perdido,
numa loucura desmedida.
Será loucura ou uma vontade infinda de se viver
sem regras e tabus que nos amedrontam sempre?
Será loucura ou um desejo enrustido que nos permite
sonhar sem que precisemos dar explicações do que sentimos?
É preferível, então, ficar totalmente perdido.
Porque é nesta perda que nos encontramos.
É nesta perda que o nosso íntimo,
que outrora sufocado, se torna fulgente e desabrocha;
se encontra.
Estar perdido é como se estar assistindo a
uma silenciosa floração.
Onde o silêncio contempla as mais variadas imaginações.
E, nesta trajetória, o legado para quem está
perdido é, simplesmente, achar-se.



Lamentos

Minha alma está a vontade,
está triste também e,
na noite perdida,
ela lamenta a tua ausência.
E tua lembrança fica agasalhada no meu silêncio.
E minha alma chora e morre também,
porque no silêncio eu teço sonhos.
Sonhos perdidos, inimagináveis.
O tempo versátil pede que eu te veja,
e te fale sobre tudo, sobre essa vida.
Teu rosto se perde em memória e fica;
não se ausenta.
Meu pensamento é amante da tua imagem;
da imagem que eu teço.
E sempre te encontro nas minhas solidões
que se revelam a cada momento sem ti.
E eu dissimulo meus sentimentos que
te espreitam a cada momento triste.
E te digo, ardentemente, neste poema,
que tua imagem sempre repousará em minha memória,
mesmo que seja para a minha tristeza.


Confissões

Jamais poderia supor, que em minha vida,
pudesse ter um amor assim tão fulgente,
tão avassalador e tão desmedido como te tenho,
que pudesse transformar o meu modo de ver as coisas,
ao meu redor,
dessa maneira que me vem sobrepondo nesses últimos dias.
Pena é saber que estou indo, que tenho pouco tempo.
Assim, queria ter mais uma parcela de tempo para ti,
para o meu amor tão intenso e tão imenso.
Tempo para esse amor sem conta.
Queria sim, estar no auge da minha vida.
Queria ter minha juventude.
Ah! Como queria!
Quanta coisa faria, quanta coisa mudaria!
Mudaria meu rumo, meu teor, minhas ilusões e
minhas desilusões,
minhas aspirações.
Mas o meu amor por ti permaneceria: eu não mudaria.
Porém, me contento com pouco.
O pouco que te tenho já é o bastante para me
sentir assim tão determinada,
porque a vida é urgente e eu também tenho pressa.
Pressa para te dizer o quanto um amor assim
transforma a vida da gente.
Pressa, porque daqui a pouco tempo não estaremos
mais nesta viagem,
não faremos mais parte deste contexto que nos uniu
e permitiu que nos reuníssemos em alguns momentos,
nem sempre tão marcantes,
mas sempre latentes.
Simplesmente vivo esta experiência, agora,
dentro de minhas limitações,
dentro de meu tempo, que como disse, urge.
Sempre te vejo como um bálsamo para as minhas
feridas da alma que não conseguem cicatrizar-se.
São feridas evasivas, que denunciam o quanto de bom sinto por ti.
Assim te encontrei!
E para mim não és apenas um homem comum.
És filho dos meus sonhos.
Dos sonhos que me trazem a uma realidade única:
te querer e nunca te ter eternamente!



Existência

Persegui meus sonhos em vão!
Então percebi que ao mesmo tempo que fiz tudo,
também não o fiz.
Faltou algo, ou muitas coisas deixaram de ser
feitas neste caminho, nesta jornada.
Foram sentimentos tardios que deixaram seu rastro,
sem progresso, com culpa.
Uma existência vazia, intermitente, oculta.
Existência fria que encobriu muitas existências que
deixaram de ser vividas.
Existência que deixou de cantar o amor, a alegria,
deixou de ser ela mesma.
Falhei! Não persegui meus sonhos, fugi através das
sombras; condenei minha existência.



O que houve comigo?

O que houve comigo?
Onde estão aquela minha coragem,
aquela minha determinação, aquele meu
brilho nos olhos?
Onde estão todos os meus sentimentos?
Será que ficaram perdidos no tempo, amargurando
um único olhar teu?
O que fiz comigo?
Será que morri para a vida esperando o
teu desabrochar em mim?
Sinto que esbarrei-me em mim mesma
tentando te encontrar.
E nada houve!
Fiquei amargurando aquela lasciva paixão
sem retorno.
Minha trajetória é dorida,
desventurada e muitas vezes me tenho por
perdida num desespero profundo.
Porque tudo em mim é incerto, pois já
se foi o tempo em que eu tive a certeza
da minha própria existência.



Ventos

Fabuloso vento que sopra em meu rosto!
E eu me deixo ficar assim e me extasio
com o teu frescor.
Frescor que me faz lembrar de momentos vividos
não muito distantes.
Frescor que me atiça algo místico, sobrenatural,
transcendente.
É nesta loucura esvoaçante que me arrependo de
não ter vivido intensamente.
Ah! Quantos ventos vivi, quantos ventos
transpassei, quantos ventos me passaram!
Vento que passa no meu caminho, sobre o meu corpo.
Vento eterno que vai em minha direção e
me conduz ao princípio de tudo, que me leva ao meu regaço.
Vento sem veste, vento despido que se funde
com meus pensamentos.
Vento brando, vento intenso que recolhe meus fragmentos.
Porém, continuas sendo vento que caminha em
minha direção.



Aquela Casa

Me lembro bem daquela casa
onde vivi meus tempos de criança e adolescência.
Que saudades que tenho daquele vasto quintal,
onde as árvores abrigavam numerosos pássaros.
Pássaros que cantarolavam num prelúdio à natureza.
Que pena que o tempo passa!
Que pena que o tempo entoa um adeus para nunca mais.
Aquela casa refletia minha vida,
minhas tristezas, minhas emoções,
meus sonhos, meus amores.
Então, um dia, a casa foi derrubada
e deu lugar a outra.
Mas nada apaga de minha memória
aquelas lembranças.
Lembranças que ficarão na eternidade de meus
pensamentos, na eternidade de minha memória.



Simplesmente Viver

Apelar para a infelicidade,
para o amor não correspondido,
para a tristeza que não vence,
é humano, demasiadamente humano.
Somos criaturas que vivemos uma incessante
procura, sempre a espera, sempre na esperança.
Não há satisfação.
Há sempre alucinações e espera.
Esperamos sempre algo.
Nada nos satisfaz.
Nada nos realiza.
Tudo nos consome.
Seria tão simples se apenas vivêssemos cada momento
como se fosse o único.
Se assim vivêssemos estaríamos impunes
dos dissabores que nos permeiam.
E essa letargia que nos impregna
permite que caminhemos, desordenadamente,
com pressa.
Pressa para se chegar a lugar nenhum.
Porque depois nos damos conta que nada
fizemos por sempre querermos, sem dosar limites.
Ah! Incessante busca humana de querer viver
o que não foi vivido!
É essa insatisfação que nos faz infelizes e
não permite que vivamos o nosso momento.
Seria tão simples se apreciássemos o sol,
o mar, as estrelas...
Seria tão bom se vivêssemos o dia, a noite
sem pressa de chegar a lugar nenhum,
sem anseios.
Seria tão simples se , simplesmente,
vivêssemos.



A Chuva

Olho pela janela e vejo a chuva.
Seus pingos insistentes caem como se fossem
uma melodia intermitente.
Fico absorta em ver este espetáculo ecoando no silêncio.
E a passos lentos espio as águas acariciarem
a terra que exala um odor nostálgico.
E o movimento das águas que caem
guardam segredos.
Segredos que um sol distante não revelou.
E a chuva cai, agora, como um tormento,
soando forte em meus ouvidos.
E tudo o que penso e o que sinto se
misturam com as suas águas que
não dão trégua a estiagem.
Forte chuva clara e fria: ameniza meu sofrimento.
Sua frescura abranda a minha alma.



Espero a Morte

Espero a morte como quem se espera a vida.
Morte que vai aniquilar tudo aquilo o quanto desejei.
Morte absurda e absoluta
que transparecerá apenas esta minha sombra humana.
Morte que retratará apenas a aparência,
sem clemência, sem chances.
Morte por aquilo que não fiz e pelo que
não suportei viver.
Espero sim, a morte, conformada,
mas cheia de angústias e lágrimas por
tudo aquilo que não vivi.
Tolhida por incertezas, espero a morte sem
calafrios, sem mistérios, sem rodeios.
Espero a morte neste espaço sombrio
sem irradiar sonhos.
Morte que é cúmplice da minha paixão
sombria e abrigo do meu destino.
Espero a morte, vencida, de braços abertos
para um abraço frio.



Angústias

O coração me dói no peito e eu tento,
insistentemente, ordenar meus pensamentos.
Pensamentos que não me trazem perspectiva alguma
de um existir melhor.
Pensamentos que também povoam meus sonhos angustiantes
me trazendo agonias.
No delírio de querer sem ver
o sentido verdadeiro das coisas,
pressagio o meu mau destino.
Quero resolver o que não foi resolvido.
Quero dar fim a um começo turbulento
e acabar com minhas dúvidas.
Porém, agora já é tarde, tudo se consumou.
Plantei em meu coração o que não deveria ter plantado.
Revolucionei minha alma e perdi meu rumo,
sem chances de vencer esta luta.
Então, fico a observar as outras pessoas
e tento decifrar se elas têm essas mesmas angústias.
Vejo, então, que é impossível
adentrar no íntimo de alguém.
Tenho que me calar
e assumir de vez este combate.
Quem sabe, um dia,meu espírito se aninhe
e acalme esta explosão delirante
me trazendo à consciência da terra.



A Essência da Vida

A essência da vida que nos permite sonhar
e que nos mantêm vivos está diante de nós,
diante de nossos olhos que se afogam na tristeza,
a cada momento encoberto.
O nosso despertar para o romance e o amor
nos movimenta para a essência da vida.
Somos seres abandonados
e esquecidos no limo do tempo e,
quando acordamos,
embuídos de paixão,
somos purificados para a vida.
E toda lágrima derramada é consolada.
E todo o segredo guardado é desvendado.
E toda a tristeza contida é esquecida.
E o desespero se transforma em
sopro misterioso que tranqüiliza
a nossa alma.



Último Adeus

Pensava sempre em ti, meu pai.
Naquele homem forte, inteligente,
que sempre me passava segurança.
Não queria acreditar que estavas indo,
que estavas me deixando.
E os teus últimos dias ficaram sombrios,
sem irradiar esperanças.
Teu olhar estava distante.
Parecia que não estavas mais ali.
Teu corpo estava debilitado,
dominado pela doença atroz
que te aniquilou e que
nem sequer deixou rastros daquela
fortaleza que um dia foste.
Estavas frágil,
preso apenas ao teu espírito.
E eu sentia que querias ir,
que a tua hora já se aproximava.
Sentia que os teus olhos queriam apenas
uma despedida,
um consentimento para ires além terra.
Desesperada, me lembrava que sempre
tiveste medo da morte.
Mas, naqueles últimos instantes senti
que a querias mais que tudo pois,
com ela, tua dor cessaria.
E, naquele primeiro dia do mês de setembro,
em alta noite, me olhaste insistentemente.
E eu mal sabia que estavas
me dando um último adeus.
E no terceiro dia, também em alta noite,
me chamaram, pois jazias em teu leito,
no seio da morte.
Estavas dormindo profundamente.