Trabalha na Caixa desde 1989. É avaliador de penhores da agência de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Casado, dois filhos, tem como hobby a escrita: crônicas, poesias, histórias. Tudo é transformado em literatura na sua Santa Tecla, codinome que inventou para brincar de escritor. Participou de vários concursos literários em seu estado e ganhou menção honrosa no Concurso de Crônicas da Universidade Federal de Santa Maria e Destaque Literário da Alpas XXI (Associação Literária a Palavra do Século XXI). Concorreu duas vezes aos prêmios Caixa de Histórias e Banco de Talentos, com crônica e poesia.
O Bixo da Faca
Como o tempo passa!
Parece que foi ontem que a gente virava as noites estudando hidráulica, cálculos, estruturas, etc. Parece que foi ontem... e foi de março de 1979 a julho de 1983, num longo e difícil curso de Engenharia Civil.
Entre as festas de calouros e a formatura, muita emoção, experiências, discussões, decepções, palavrões e, acima de tudo, muita esperança. Muitas dessas experiências foram tensas, mas nada que não tenha sido superado. Os traumas posteriores foram sumindo no decorrer do curso, e as seqüelas ficaram lá no passado.
Estávamos iniciando o quinto semestre, e algumas das cadeiras ainda assistíamos no prédio da Interamericana. Também tinha aulas o pessoal do terceiro semestre e, é claro, os calouros.
Num intervalo de uma das aulas de Cálculo Integral, em que varávamos as tardes fazendo contas, eu estava no banheiro do segundo andar quando, de repente, ouvi uma gritaria no corredor. Num primeiro momento, não atinei a gravidade da situação. Mais parecia um festejo dos bixos, com aquelas habituais brincadeiras. Mas a gritaria continuava e cada vez mais intensa. Quando estou saindo, ao colocar o pé no corredor, vejo que a coisa era mais séria do que supunha. Cruzo os braços, me escoro no marco da porta, e fico a contemplar o episódio.
À minha esquerda, os veteranos do curso de engenharia a jogar ofensas aos calouros. À minha direita, um dos calouros estava com uma faca na mão.
-Larga a faca, valentão!
-Vem pra ver o que acontece!
-Sem vergonha, tu não terminas o curso!
-Eu não sou bixo.
O ferro branco brilhava ali no meio do corredor. Volta e meia apontava para um e para outro. O reflexo da faca dançava pelas paredes. De vez em quando cruzava com olhos assustados diante do impasse da situação. A faca reluzia nervosa de uma mão para outra, numa inquietude preocupante.
Um professor cruza, calmamente, por entre os pelotões em batalha, totalmente alheio aos acontecimentos naquele corredor da fuzarca. Carregava, embaixo dos braços, dois livros grossos, um de álgebra linear e outro de física quântica. Rodopiava entre os dedos uma caneta tinteiro que lhe escapa das mãos e cai bem em minha frente. Ao se abaixar para juntar, seus óculos refletiram a lâmina fina, trêmula e niquelada da faca do calouro. Temo pela integridade do professor distraído, mas o distinto mestre consegue passar incólume pelos calouros alvorotados nos xingamentos que continuavam de parte a parte.
-Não vou fazer parte deste troço! Cachorrada!
-Quando é tempo de tosquia...carneirinho. - Cantou um nativista de bombacha.
-Vem, vem, vem! Gringuinho da Nova Palma. Provocou dois metros de alemão.
-Nova Palma, não. Faxinal! Deixou à vista uma rivalidade da Quarta Colônia.
-Valente! Com a faca na mão.
E eu, ali no meio daquele pingue-pongue de impropérios entre veteranos e calouros, apenas como testemunha ocular daquela balbúrdia. Passou-se aproximadamente uma meia hora de batalha verbal até que os exércitos foram cansando e, lenta e gradualmente, se dispersando. Em pouco tempo, a tranqüilidade voltou a reinar nos corredores do prédio da Interamericana.
Finalmente cada um foi para seu canto, e o tal Bixo da Faca, como ficou conhecido, acabou não sofrendo os costumeiros trotes da engenharia, e freqüentou normalmente o curso como qualquer um dos demais calouros aprovados naquele ano.
E eu fui apenas um mero espectador daquela pequena história, numa tarde mormacenta, na universidade dos anos 80. Após aquele triste acontecimento, eu e mais dois colegas de turma fomos para biblioteca resolver uns exercícios de concreto armado e conversar amenidades. Lá fora, a noite caía calmamente, e o sol sumia por detrás dos prédios das Ciências Naturais e Exatas.
Os nossos duzentos anos
Sentados em nossas poltronas estamos ansiosos, inquietos e alvorotados.
O filme está prestes a começar, eu e meu amigo há muito esperávamos por esta película que é um pouco da nossa trajetória e ousadia por acreditar que um outro mundo é possível. É um hábito antigo tomarmos chá quando assistimos televisão. Enquanto sirvo nossas canecas, meu companheiro, externa sua expectativa tamborilando com as mãos na guarda da poltrona.
As primeiras cenas desse filme se passam na França, quando a burguesia faz a sua revolução e se estabiliza enquanto classe dominante. Embora introdutórias, são cenas de suma importância, pois vemos a assunção da classe que dominará o mundo por um longo tempo e que tentaremos em todos os cantos da terra, derrubá-la. Aonde houver um indignado com as injustiças sociais haverá um revolucionário para transformar a sociedade.
Estamos no início do século XIX, as cenas são de vales verdejantes e riachos límpidos, na tela, as idéias do socialismo utópico a penetrar nas fileiras dos trabalhadores assalariados que começavam a criticar fortemente as mazelas do capitalismo. Podemos ver Saint Simon, um nobre que tentou explicar as injustiças sociais. Naquele 1847, apontavam-se como socialistas os seguidores de diversos sistemas utópicos, alheios aos movimentos operários, organizações sociais diversas e constituição de grupos autônomos de operários. Entretanto, em meados do século aparecem, imagens de Marx e Engels, revolucionando a filosofia com o marxismo. Nasce o socialismo científico. Com o princípio fundamental da unificação da classe trabalhadora. Trabalhadores do mundo, uni-vos! Ficou gravado em nossas mentes. Um sonho, num momento em que o capitalismo encontra-se fortemente aceito e estabelecido em uma série de países da Europa e na América do Norte.
Não podemos deixar de lembrar que estamos assistindo ao desenrolar da história comodamente sentados em nossas poltronas, e pelo desenvolvimento da trama no vídeo nós já estamos com quase oitenta anos. Nossos gestos são lentos e breves são os comentários. Esse filme é a nossa obra e legado.
Começo do século XX, estamos com cem anos, a barba encosta em nossos pés, não há tempo para cortá-la, pois o tempo não pára e estamos atentos a essa história. Confesso que me sinto meio velho, mas ainda tenho forças, fui um trabalhador de pegar no pesado e ainda me resta muita vitalidade. O meu parceiro, como eu, também está velho e cansado, ele foi um revolucionário, correu mundo, lutou por uma causa justa e um ideal de liberdade, foi preso e torturado várias vezes. Quando o vejo dar uma cochilada, em alguma parte do filme, eu não o acordo, pois ele é um dos personagens principais da tela e está apenas revendo as filmagens. Eu, apenas um coadjuvante dessa história, apreciador dos movimentos sociais e da luta libertária.
Estou precisando comprar umas poltronas novas e trocar as lentes dos meus óculos.
Neste instante nossa câmara focaliza a estação Finlândia e vemos um revolucionário partindo para a conquista, a vitória brilha em seus olhos. Gesticula bravamente e seu discurso é inflamado e incisivo. 1917: nosso grande êxtase, finalmente a classe trabalhadora chega ao poder. Eu, com quase 120 anos, choro de emoção, o mundo modificará, valeu a pena ter vivido. Comboio do exército vermelho invade Petrogrado, soldados exibem suas bandeiras vermelhas, as ruas são tomadas pelo povo russo e pelo exército bolchevique. Podemos ver Lenin exclamar em alto e bom som. "Depois das perseguições e dessa vida clandestina, chegamos ao poder!". Trotski sorri disfarçadamente, enquanto, pensativo e profundamente emocionado, com o seu inseparável lenço branco, limpa as lentes de seus óculos.
E nós, nas poltronas da história, vendo o Estrela Vermelha, vapor de propaganda revolucionária, deslizando lentamente sobre as águas. Era a felicidade em seu extremo, o mundo é o nosso sonho... Finalmente! A utopia está realizada em sua plenitude.
Passado um breve tempo, algumas inquietações começam a aflorar, nos deixam extremamente preocupados e nossas poltronas desconfortáveis. Não era bem isso o que imaginávamos. Com Stalin o sonho degringolou e um pesadelo ronda nosso sono. No monitor do socialismo esquecemos o outro canal que passava o avanço do capitalismo, mas mesmo assim o socialismo Russo vai sobrevivendo, à moda Stalin, sobrevivendo. Vendo o socialismo, no monitor em frente aos nossos olhos, concluíamos que não era bem o que desejávamos, mas estávamos extáticos e não queríamos enxergar diferente. Iria dar certo, tinha que dar certo.
Não demorou muito, entra um plantão de emergência com notícias de primeira mão. Um minúsculo país, do outro lado do mundo, também faz uma revolução socialista. Nós ficamos boquiabertos. Aonde fica Cuba? Quem é este Fidel Castro? Che Guevara? Sierra Maestra! Camilo Cienfuegos... isso é nome? Como é que fazem uma coisa dessas e não avisam a gente? Como é que estes guris não nos convidaram para a conspiração?
E o filme vai rodando, nossas poltronas estão desbotadas e rasgadas e parece que foi ontem que eu tinha comprado um estofado novo. Na noite passada, uma senhora passou por aqui, aparou nossas barbas, trouxe-nos uma caneca de chá e se retirou silenciosamente. Disse que se chamava Olga. Não sei quem a mandou, muito simpática e prestativa. Outro dia um carteiro me entregou um telegrama de minha filha, uma linda mensagem de felicitações pela passagem do meu aniversário, que eu até tinha esquecido. A fisionomia do carteiro me lembrou os traços de um grande companheiro, que estava convidado para o ver o filme, e que não pôde vir, pois tinha que trabalhar na metalúrgica.
Em 1989 parece que o filme encaminha-se para o final, diga-se de passagem, para um trágico final. Vão-se por água abaixo todos os nossos sonhos e lutas. Vemos o mundo cair e estamos perplexos. Um a um, todos caindo, não era lá bem o que imaginávamos para os trabalhadores, mas ainda supúnhamos que poderia ser aprimorado numa melhoria gradativa . Não acreditávamos no que estávamos assistindo. Seria o fim?
De repente, esta poltrona tornou-se incômoda, noto que minha mão tremula ao roçar a barba que novamente está precisando de uma aparadinha, aquela senhora que esteve aqui, por onde será que anda? Como era mesmo o nome dela? Estamos com quase duzentos anos e ainda não conseguimos ver a libertação da classe trabalhadora. Valeu a pena perdermos tantos companheiros nas guerrilhas e sucumbidos nos aparelhos clandestinos? Pessoas que deram suas vidas em nome de uma causa, para tudo ser ruído a golpes de picaretas na derrubada de um muro, em uma festa que não estava programada.
O filme está terminando, as letrinhas sobem no monitor enquanto toca a música tema. Nós estamos cansados e sonolentos, pois esta película demorou duzentos anos e nós assistimos atentamente cada passagem dessa história. Embora meio sonolento eu vi umas imagens atrás das letrinhas do vídeo. Eram pessoas gritando e pulando, homens, mulheres, jovens, crianças, idosos, várias pessoas gritando alguma coisa que parecia ser justiça, outras vezes, liberdade. Brincavam de roda, jogavam amarelinha, soltavam pandorgas e pulavam sapatas. Algumas delas carregavam nas mãos rosas, bandeiras e estrelas. No céu voavam pombas brancas. Pareciam ser cenas do fim do filme, mas na realidade eram imagens do próximo capítulo. Finalmente a tela do vídeo torna-se escura.
Desligo a televisão e vou me deitar, talvez meus sonhos sejam melhores que a tela amarga da emissora e o que eu vi atrás das letras que subiam, cresça e floresça, nem que para isto tenhamos que viver mais duzentos anos. Olho para a poltrona ao meu lado e vejo meu companheiro em sono profundo e com um leve sorriso nos lábios que transmite um sensação de paz e serenidade ao rosto. Resolvo não acordá-lo.
Mando trocar esta poltrona novamente, está me fazendo calo na bunda. Tomo o último gole do meu chá de boldo e deixo a caneca cair no chão. Um esforço, por menor que seja, me deixa cansado, penso que a minha hora está chegando. São duas horas da madrugada, vou para o meu quarto deito e durmo, continuarei sonhando com um mundo mais solidário, de paz e harmonia entre os povos deste judiado planeta água, mas estou muito velho e cansado. Não sei se acordo amanhã com a mesma vontade e perseverança para lutar.
Nem sei se acordo amanhã.
O Penhor do Pinto
O posto de penhor, recém aberto, estava em fase de implantação, e lá estava um avaliador dando informações e contribuindo em alguma tarefa que ajudasse na organização e andamento do setor, pois como em todo começo as avaliações novas, dos penhores de jóias, são um pouco escassas.
Certa tarde, de um dia quente desse nosso verão escaldante, entra no recinto do penhor, um senhor alto, suando até a ponta do nariz. Era um gringo da colônia com larga vivência urbana, esperto e conversador, dirige-se diretamente ao avaliado, que estava absorto na leitura de um fax da executiva que trazia notícias sobre as negociações salariais.
- Boa tarde moço.
- Boa tarde.
- Aqui dentro tá fresquinho, não imagina como está lá fora.
Queria obter informações sobre o penhor, suas vantagens, desvantagens e se as jóias estariam seguras no banco, tinha ouvido falar de um assalto lá em Belém, aonde os ladrões roubaram todas as jóias do cofre. Tinha muito medo de roubo e não queria amargar a perda de suas jóias que possuíam um grande valor de estimação, sendo que algumas delas vieram da Itália quando sua avó migrou para o sul do Brasil.
Após obter as informações necessárias e ser tranqüilizado acerca de tal operação e de sua segurança, disse que já era cliente do penhor de uma agência em Porto Alegre, mais precisamente o posto de Penhor da Praça da Alfândega. Com a abertura de uma agência de penhores na cidade, iria trazer suas jóias para o posto em implantação. Assim, não teria que viajar a Porto Alegre toda vez que quisesse resgatar ou renovar um contrato.
- Então o senhor vai trazer suas jóias de Porto Alegre?
- Não, eu já estou com elas aqui...
- O senhor vai fazer o penhor hoje?
- Sim.
Pediu licença, levantou-se, virou um pouco de lado, de frente para a parede.
- Tem que ser meio escondido. Comentou.
Abriu o zíper da calça, meio desajeitado e atrapalhado, enfiou a mão com uma certa demora, talvez pelo difícil acesso. Antes mesmo do avaliador, meio assustado, dizer que "pinto" a Caixa ainda não aceitava como garantia para fins de empréstimo sob penhor, o cidadão, ali em frente, retirou de dentro de sua calça um pacote envolto em papel branco e amarrado com atilhos.
- Quero penhorar estas jóias.
Largou o pacote em cima da mesa e mais que depressa fechou o zíper e estatelou-se na cadeira. O suor corria-lhe pela testa, embora o ar condicionado do ambiente estivesse funcionando normalmente. O avaliador, com o constrangimento devido a tal situação ser inusitada num posto de penhor, solicitou.
- O senhor desfaça o pacote, por gentileza.
Provavelmente com um pouco de receio em tocar no invólucro branco e suado das jóias, que certamente ladrão nenhum jamais encontraria.
Com uma análise rápida e visual, o lote, de seis anéis, três colares e quatro pulseiras, foi considerado como jóias de ouro 18 quilates e em bom estado de conservação. Pularam da mesa para a balança e da balança para o envelope com o lacre da Caixa, o mais rápido possível. Total da avaliação R$ 860,00.
Circolo Friulano
Uma noite de sexta-feira, antevéspera dos dias das mães, o Circolo Friulano promove, no salão de festas do centenário casarão da associação italiana, uma confraternização entre os associados, todos descendentes do distante norte da Itália.
Embora de origem espanhola, tataraneto de um casal de anarquistas bascos, estou presente na festa por ser um admirador da cultura e principalmente da culinária italianas. Sinto-me à vontade, pois se o encontro é para matar a saudade, somos todos solidários. As emoções e os sentimentos são diferenciados pelas décadas corroídas por anos de labuta, pelos trejeitos dos saudosos imigrantes e por restos de sotaque que ainda teimamos em carregar.
Ao som da "Mérica" foi dado início às festividades. O risoto foi servido juntamente com salsichão assado, saladas de alface, tomate e cebola. Mérica! Mérica! Mérica! Quanto mais ouvimos mais nos emocionamos e saboreamos os vivas, os abraços e o vinho tinto. Em uma solenidade simples foram feitas as entregas dos certificados aos alunos que concluíram o curso de italiano. Aplausos, vivas e mais vinho tinto. Esvaziavam-se jarras e enchiam-se cálices. Quanto mais jarras vazias sobre as mesas, maior a animação dos convidados.
Numa mesa, próxima a uma imensa janela, um ancião, com o olhar absorto no horizonte da sala, vagueia em pensamento, certamente viajando ao passado, recordando passagens de uma vida de luta, alegria, tristeza e saudade. Batendo machado na lenha tosca, enquanto o moinho ao lado do galpão gira com a água da sanga ou, quem sabe, rememorando antigas histórias do velho Nôno que vem sendo contada, de geração em geração, desde a sua partida da Itália. Ao voltar desta breve viagem pelas trilha da vida, percebe que o seu cálice de vinho está vazio.
- Este vinho me leva de volta para Itália e deixa minha memória cada vez mais viva. Comenta, para si, num sussurro.
Neste instante o presidente da associação, um senhor grisalho com um volumoso bigode preto, resolve fazer uma homenagem às mães.
- Nos coloquemos no lugar daquelas mães que viram seus filhos partirem, rumo ao encontro do céu com o mar, perdê-los para um mundo totalmente novo e desconhecido. Podemos ver nitidamente a imagem dos lenços brancos desfraldados ao vento, marcando a definitiva despedida. Vejam amigos, estamos no ano de 1871 e de lá para cá, o mundo mudou radicalmente. Hoje damos um "clic" no nosso computador e estamos em contato com uma pessoa no outro lado do planeta. Vislumbremos em nossas mentes uma mãe, no cais dos porto, vendo lentamente seu filho sumir mar adentro rumo ao inesperado. Quantas noites sem dormir, moída pela saudade e pela infindável ausência. São estes sentimentos que nos unem e nos trazem aqui para confraternizarmos e cultuarmos a memória de nossos antepassados, que ficaram na Itália, chorosos pela nossa partida, mas que estarão sempre em nossos corações e em nossas orações.
Este momento nos emociona profundamente, uma senhora sexagenária lacrimeja abraçada em sua neta, enquanto isso meu filho rodopia entre os dedos a surrada boina basca, única herança do velho Juan, o anarquista espanhol.
Uma música desfaz este encanto.
"Quando si pianta la bella polenta, la bella polenta, si pianta cosi..."
O baile começa animado.
O colega Osama
A manchete do jornal dominical era contundente: "A primeira guerra do século 21".
Apreensivo, começo a folhear o encarte. Em instantes deparo-me com um breve currículo dos dois prováveis protagonistas desse confronto.
De um lado o poderoso W. Bush, 54 anos, professor de história, empresário do ramo petrolífero e apaixonado por beisebol. De outro, Osama Bin Laden, 44 anos, filho de magnata e engenheiro civil.
Inacreditável, mas Osama Bin Laden é engenheiro civil.
No curso de engenharia estudamos cinco longos anos. Aprendemos a planejar e executar vários tipos de obras. Nos debruçamos sobre as pranchetas, por horas a fio, para projetarmos unidades habitacionais que ofereçam conforto, segurança e tranqüilidade às pessoas. É com enorme satisfação e realização pessoal que vemos uma obra concluída. Edifícios, como o World Trade Center, são considerados obras de arte no meio acadêmico. Portanto, inimaginável a sua destruição.
Neste ínterim transporto-me para o inicio da década de 80, numa aula de Construção Civil II. Lá do fundo da memória veio em minha mente a imagem de um aluno quieto, simpático, magro e extremamente educado. Usava um turbante, tinha uma barba preta e fina. Eu sempre achei aquele hondurenho meio estranho, mas a lembrança do frondoso turbante aguçou minhas dúvidas sobre a nacionalidade daquele sujeito. A fisionomia de Osama na capa do jornal era fiel com a do colega gravada em minha memória.
Passados vinte anos, uma barba um pouco grisalha e estava ali, nitidamente diante de meus olhos, nas reportagens acerca do atentado, a imagem do colega do curso de engenharia.
Tremo e meu coração acelera. - Fui colega de um terrorista!
Permaneci com aquela incerteza por vários dias. A Barba. O turbante. O nome, realmente, eu não lembrava, mas a sonoridade de "Osama" era familiar.
Em um ensolarado sábado, na movimentada manhã do calçadão da Primeira Quadra, encontrei outro colega de curso. Com uma certa afobação sobre quem eu supunha ser Bin Laden, expliquei-lhe minhas conjecturas.
Ele foi taxativo.
- Não. Deixa de paranóia. Aquele colega estrangeiro não era hondurenho, muito menos saudita, ele era argentino. Não usava turbante e sim uma boina preta. Tinha uma barba volumosa, neste ponto tua memória não falhou. Finalmente, o nome do simpático castelhano não era Osama, ele se chamava Ernesto.
- Che Guevara!
Saio a passo largo pelo calçadão afora e deixo meu colega estupefato, boquiaberto, enquanto uma roda de capoeira se formava em frente a agência bancária e um artista popular pichava cascatas em folhas de eucatex.
O almoço
A hora sempre era a mesma, 13 horas.
Os três amigos trabalhavam em bancos distintos, tinham o mesmo horário de intervalo para o almoço e meia hora para estarem de volta aos seus locais de trabalho.
À mesa, cada um tinha o seu lugar preferido. Um porque queria ficar de frente para a televisão, pois gostava de assistir o esporte ao meio-dia. Era fã do Dunga e torcia para o colorado dos pampas, achava que o bigode do Felipão não era simétrico e era apaixonado pelos enigmáticos olhos verdes da apresentadora; o outro, queria ficar de costas para a televisão pelos mesmos motivos; a terceira parceira do almoço ficava naquele lugar para olhar frontalmente aquela imensa tigela de ambrosia, que não faria parte de sua sobremesa.
O colorado pertencia à esquerda light, era um ex-anarquista fruto da sua iniciação na política estudantil. O amigo, que ficava sempre de costas para as notícias, um suposto liberal bem-humorado que via graça nas mais diversas situações do dia, não era dado a discussões filosóficas e não perdia seu valioso tempo vendo futebol. E a parceira de mesa não se cansava em dizer que era muito dedicada aos filhos, ao marido e ao trabalho.
Na mesa ao lado almoçava um senhor que aparentava uns sessenta anos e já fazia alguns meses que aquele cidadão era vizinho constante naquela meia hora gastronômica. Um homem totalmente alienado ao recinto, seu único interesse era o prato. Na maioria das vezes, trajava uma camisa xadrez, uma gravata listrada, cujo prendedor ficava a dois dedos do nó e um paletó azul marinho com pequenas listras brancas. Seu bigode, bem fino, apenas fazia uma sombra no lábio. Observando-se de perfil parecia que, quando mastigava, seu lábio inferior tocava a ponta do nariz, apenas impressão.
Os assuntos variavam dos esportivos, passando pelos sindicais, aos políticos, esses provocados pelo colorado ex-anarquista. Sempre que a discussão política ia se tornando levemente séria, a dedicada aos filhos ficava com os olhos sonhadores, distantes, ausentes do salão e da salada verde, tomate, beringela e arroz branco, que o colorado ex-anarquista chamava de cardápio Fla-Flu. Quando o assuntou enveredava para o comportamento e estética do ser humano, coisa que beirava ao fuxico, a dedicada aos filhos se extasiava com extrema facilidade. Foi num desses momentos que o suposto liberal fez a derradeira pergunta, colocando quatro opções de respostas, num final de almoço.
- Aquele cidadão ao lado seria um anônimo advogado, um corretor de imóveis aposentado, um técnico em contabilidade que virou despachante ou um rico excêntrico?
- Puxa, avaliação pela aparência.
- Vai lá e pergunta para ele, vale o bife. - Falou a dedicada aos filhos.
- Na saída pergunto para o caixa. E o nome, qual é?
- Ariosto! Disse a dedicada aos filhos.
- Valdomiro! Opinou, logicamente, o colorado ex-anarquista.
- Percival! Balbuciou, baixinho, o autor da pergunta.
Após pagarem suas despesas o suposto liberal perguntou à recepcionista:
- Aquele senhor ali, quem é ele? Parece-me conhecido!
- Ah! O seu Jorge, ele é representante comercial e tem sempre almoçado por aqui.
A Bandeira Cor de Aurora
A tarde cai, e o dia adormece. O aconchego do sol nos campos e morros da Boca do Monte refletem sonhos que estão presentes na história da nossa cidade. O vermelho crepúsculo da tarde, no cruzamento da avenida, banha-nos de sol poente, e brilha nos olhos o fascínio de quem enxerga o futuro além do horizonte.
Nossos sonhos seguem, a passos firmes, com esta bandeira cor de aurora, que desfraldada na avenida, tremula na tarde encarnada. Esta bandeira tem a cor incandescente que nos anima e nos afaga, apaixona multidões, traz a esperança com o calor que aconchega sentimentos e orações. Tem a graça das crianças jogando sapata. O sorriso discreto dos humildes. Possui a eterna esperança das donas de casa, no bate-bate das roupas no tanque do quintal e no silêncio do pescador, no meio da barragem, tenteando um pequeno lambari. Esta bandeira é o lenço do gaudério quando chimarreia solito, ou manta em um descampado frio da campanha. É a toalha para o piquenique da gurizada em baixo do cinamomo e cobertor que acalenta o sono do recém nascido. É a estampa que ornamenta a parede da sala da singela morada.
A sua força está no vigor da juventude e na persistência do trabalhador, que não desanima, e insiste em sonhar com uma vida mais prazerosa e mais humana. Mais digna para os filhos e mais tranqüila para os idosos. Esta bandeira é a mortalha de quem lutou para mudar o mundo e foi vencido pela vida, derrotado pela traição e injuriado pelos detratores. Esta bandeira, tem seu lugar reservado no pedestal dos corações que sonham alto e são livres, como os pássaros em revoada serro a cima.
No seu bojo, um símbolo do céu, nos logradouros uma mensagem de alegria e nas mãos que acenam, um legado de esperança. Bate no coração e acelera a alma, inspira a transparência e almeja a vida para ser vivida em sua plenitude. Esta bandeira, que aproxima a gente, está nos carros, faceira contra o vento. Eloqüente nas sacadas dos prédios. Altiva no parapeito das casas e imponente no fundo do rincão, no alto de uma taquara. Determinada e incansável na porteirinha da chácara São José. Está no acampamento, e viva no casebre da vila proletária. Triste nos olhares tristes dos meninos de rua. Está ingênua na mão de uma criança, séria na mão do professor e sábia na mão do ancião. Acalenta os corações esperançosos de justiça, transparência e igualdade. É livre, e por ser livre, liberta. É digna, e por ser digna, dignifica.
Quando cai a tarde, no descanso do seu difícil trajeto, tremulará com o vigor de um vencedor desta primeira etapa de uma longa jornada. E num vago facho de sol, cambaleante ante a noite que se aproxima, veremos a realidade de quem olha para o mundo com um claro sentido para a vida. E neste momento quando vislumbramos a vitória, que nos enche de alegria e satisfação, é nesta bandeira que enxugamos nossas lágrimas embriagadas de intensa emoção e glória.
O Barriga Fracassada
Há alguns dias, folheando um antigo álbum de família, deparei-me com uma foto datada de 01 de janeiro de 1941, eram os ferroviários dentro de um depósito, toda uma turma, sorridentes, alvorotados, engraxados, naquela tradicional pose de time de futebol, os da frente agachados e os de trás em pé, bem ao fundo via-se, no meio da penumbra do ambiente, uma Maria-Fumaça.
As suas fisionomias demonstravam que aqueles homens estavam felizes. A foto foi tirada na comemoração da passagem do ano novo. Naquele depósito, muitas vezes insalubre, os operários suavam no trabalho, sujavam seus macacões de graxa, calejavam as mãos e viviam uma vida simples de homens simples que sonhavam felizes um futuro melhor para seus filhos. Os mais "craques", jogavam na várzea no sábado à tarde, outros jogavam bolão no Grêmio Ferroviário, canastra na Associação e freqüentavam a missa das dez aos domingos na capela, iam com a melhor roupa que tinham, acompanhados das esposas e da filharada que fazia muita algazarra em frente da igreja.
Reportando-me aqueles áureos tempos fiquei imaginando o tumulto na estação, o vaivém dos guarda-malas. O aceno com o chapéu ao amigo que acabava de chegar. Dali a pouco o chefe da estação batia o sino e o trem partia rumo a fronteira. O andar trôpego do velho carregador de malas, curvado pelo tempo e lento pelos anos vividos. No outro dia o mesmo burburinho e pessoas indo e vindo por este mundo de Deus.
O Seu Joaquim, um dos mais conceituados funcionários da viação, que não era de fazer voltas e não media as palavras, quando o salário não comprava o rancho do mês era comum os seus reclames, principalmente quando um "graúdo" da empresa estava em visita, inspeção ou apenas de passagem na velha estação lá de Ramiz Galvão, primeira parada após Rio Pardo. As lamúrias eram sempre as mesmas:
- Assim não dá "dotor", com este salário não dá pra comprar a comida, o senhor sabe né, a gente fica com fome, e a gente com fome a barriga vai fracassando... a barriga vai fracassando "dotor".
Tanto repetiu este discurso que passou a ser chamado de Barriga Fracassada.
E o Barriga Fracassada ía fazendo história no barulhento depósito da Viação.
-Assim não dá "dotor", a barriga vai fracassando. Fracassando "dotor".
Também não consta que o salário tenha tirado sua barriga do fracasso nos anos seguintes, por outro lado, sabemos o destino de maior abandono que foi relegada à Viação e os seus funcionários pelos governos vindouros. Hoje, para acobertar este descaso ou negligência administrativa, de malha em malha fomos privatizando a rede ferroviária. Em pouco tempo, a bordo de um trem bala que nos leva a Porto Alegre, teremos esquecido que a Rede foi grande sendo pública, que os ferroviários foram uma das categorias mais organizadas deste país e que a Cooperativa da Viação foi uma das maiores da América.
Naqueles longínquos e românticos anos 40, em que o tempo passava com morosidade, a Maria-Fumaça fumegava trilhos à fora, levava e trazia sonhos e saudades para cada estação à beira do seu caminho. No depósito da Viação Férrea, no meio da graxa e das ferramentas o Seu Joaquim batia martelo nas bigornas, o dia todo, anos a fio.
Batia bigornas e reclamava do salário. O Seu joaquim, de Ramiz Galvão, o velho Barriga Fracassada.
A bondosa velhinha
Chamava-se Maria Anita Garibaldi Deodora da Fonseca Prestes. Uma bondosa anciã. Morava em um distrito de Santa Maria e vinha todo santo mês pagar a prestação de seu financiamento habitacional no caixa da Caixa.
Diante da simpatia e das atitudes amáveis daquela bem-falante senhora, certa vez, resolvi fazer um comentário sobre o seu nome. Um nome imponente que desde o primeiro dia aguçou minha curiosidade sobre sua origem.
- A senhora tem um interessante e bonito nome, presta homenagens a várias figuras da nossa história. De antemão, percebe-se que seus pais eram pessoas cultas.
E comecei minha divagação elogiosa:
- Anita Garibaldi foi uma guerreira, valente farrapa e incansável companheira do grande e também herói farroupilha Giuseppe Garibaldi; Deodoro da Fonseca, proclamou a república do Brasil e foi o nosso primeiro presidente e por fim seu nome homenageia Luiz Carlos Prestes, o cavaleiro da esperança, um dos maiores ícones da esquerda brasileira. Um revolucionário por excelência. Foi preso e torturado, viveu boa parte de sua vida na clandestinidade lutando pela justiça e pela liberdade que acreditava.
Imaginei que um elogio desses a bondosa velhinha jamais havia recebido.
A fisionomia de D. Maria Anita enrubesceu, transformou-se do outro lado do guichê e soltou o verbo acerca do seu nome.
- Olha moço! Anita Garibaldi foi uma vagabunda, abandonou o marido e foi viver com um depravado caudilho italiano metido a conquistador; Deodoro era um fracote, tão fraco que para proclamar a república levantou aquele chapéu velho e fedorento que usava, em qualquer país civilizado e decente um herói de tamanha envergadura levantaria uma espada e descarregaria uma rajada de metralhadora no infinito azul do universo. O Prestes, um sem-vergonha grande, traiu o exército e foi à moda caudilhesca com uma tropa pelo Brasil adentro, achando que resolveria os problemas do país, não deu em nada. A intentona de 35 foi o seu maior fiasco. E sentenciou: - Moço! No meu nome só tem sem-vergonha e vagabundo.
No lado de cá do guichê fico estarrecido. Momentaneamente sem saber o que dizer. Quando me refaço do golpe me lembro de Nossa Senhora, como sou devoto de Santa Maria, silenciei sobre qualquer comentário acerca da Maria do seu apoteótico nome.
Dona Maria Anita ainda fez outros comentários sobre algumas personalidades da nossa história e encerrou o assunto com a alma lavada e um largo sorriso que iluminou sua face travessa.
Arrumou seus pertences em sua inseparável bolsa, levantou-se lentamente e saiu. Repentinamente volta e fala baixinho para eu ouvir o seu último comentário:
- Vou indo pois o meu genro, o Getúlio, está me aguardando... aliás, um corno nesta história.
E se foi, passo curto e ligeiro, para fora da agência, ao encontro do genro.
E eu fiquei sem saber se o corno era o genro ou o saudoso trabalhista ex-presidente.
Degustação na colônia
O encontro prometia ser uma grande festa italiana. Degustações de vinhos e janta típica da colônia era o cardápio naquela noite fria do inverno gaúcho. Estou absorto, sonhando com o bordô colonial e o caprichado risoto que em breve será servido. Repentinamente, sou convidado a fazer parte do corpo de degustadores.
- O enólogo de Caxias do Sul, infelizmente, não pode vir e o senhor foi indicado para substitui-lo. - Comunica-me o organizador da festa.
- Eu?...
- Agradecendo a colaboração dos degustadores, gostaríamos de dar início a esta festa, esclarecendo que a avaliação dos vinhos é feita, em uma tabela, atribuindo-se notas de zero a dez para três itens, quais sejam: cor, aroma e sabor. Na última coluna faz-se o somatório dos três valores e temos o total de pontos do vinho analisado. Primeiramente, a comissão julgadora fará a avaliação dos vinhos brancos.
Uma senhorita nos serve o primeiro de uma série de doze vinhos brancos.
Avaliamos. Cor: 7. Rodo lentamente o cálice. Aroma: 8. Enfim, provo-o. Sabor: 8. Total da nota: 23 pontos.
Assim, sucessivamente, o mestre de cerimônias vai anunciando os vinhos a serem degustados e julgados, devidamente acompanhados com queijos, pãezinhos e uma providencial água mineral.
- Será apreciado agora o vinho de número 13. O primeiro tinto desta fria, mas aconchegante noite. - Anuncia o chefe do cerimonial.
Após uma breve avaliação visual atribuo nota 7 para o item cor, 7 para o aroma e 8 para o sabor. Total da avaliação: 22 pontos.
- Avaliaremos vinte e cinco tintos, todos produzidos por famílias de produtores da região, em pequenas vinícolas de fundo de quintal, produções apenas para consumo caseiro. Passaremos a apreciação do vigésimo nono vinho.
Os cinco degustadores, simultaneamente, rodam os cálices e o tinto libera seus aromas e em seguida aveluda o paladar dos respeitáveis enófilos. Devido ao número excessivo de doses degustadas, é perceptível uma agradável descontração entre os membros da comissão julgadora.
- Muito bom. Cor: 8. Aroma: 9. Sabor: 8. Total da nota...27 pontos. Desconfio da minha soma e refaço a conta. 8 + 9 + 8= 25. Total: 25 pontos. Assim fica mais condizente com a verdade matemática.
- Muito bem, senhoras e senhores, o jantar está pronto e será servido tão logo terminemos esta degustação. Imediatamente passaremos a análise do vinho de número 35. Antepenúltimo tinto deste concurso do melhor vinho da região.
- Sérgio, tu que és professor de matemática, quanto é 8 + 9 + 7? Porque eu estou com a impressão que a nossa capacidade de fazermos cálculos está prejudicada.
- Hum... 8 + 9 + 7... 24. Se não me falha a memória.
- Finalmente, apreciaremos o vinho de número 37, o último desta memorável festa e em quinze minutos estaremos divulgando e premiando os vencedores.
- Este tinto está me parecendo meio branco demais e extremamente azedo. Aliás, eu nunca tinha visto um tinto borbulhar. Muito estranho! - Comento com o professor ao lado, parceiro desta banca de degustação.
- Olha, não quero me intrometer na tua avaliação, mas tu estás degustando a água mineral.
- Ah... bom! Onde está o pratinho com os queijos?
Sorvo o último tinto e classifico-o com 28 pontos. Neste momento só tenho olhos em direção ao galeto assado, dourado e suculento sobre a mesa do bufete.
A Ligação
-Caixxxa Federal, boa tardiiiii!
A telefonista, como habitual e mecanicamente faz, na sonolência e morna tarde de outubro, transfere a ligação para mim. Com o seguinte recado:
-Athos, ligação de Brasília, o Marçal, da Sasse, quer falar contigo.
-Ô Marçal! Tudo bem? A ligação tá meio ruim, mas o que tu andas fazendo aí pelo planalto central, tu não estavas em São Paulo?
-Tô aqui na seguradora, problemas em cima de problemas, no maior sufoco, debaixo do mau tempo, nem imaginas.
-Seguradora? Tu não estavas na APCEF-SP, Marçal?
-Não! Eu sempre trabalhei aqui. Na Matriz. Próximo do poder, na cidade que o Oscar Niemayer projetou e o Jucelino construiu.
Neste lado da linha, meio patético, estou achando a conversa meio sem-pé-nem-cabeça. O Marçal na seguradora? Ele não tinha sido transferido para São Paulo? Ele não estava na Agência Anhagabaú, totalmente adaptado à metrópole paulista.
-Atho! Seguiu falando o suposto Marçal. Estamos com um problema para liberar o seguro. O processo foi mal encaminhado, faltam documentos e provas. Os cálculos terão que ser refeitos novamente.
-Que seguro? Que documentação? Marçal! Eu tô no penhor.
Por que o Marçal tá falando o meu nome sem o "s"? Pensei cá com os meus botões.
-Pô Atho, o seguro do Valdomiro, aquele que demoliu o carro aí na 290. Não tá lembrado?
-Quem tá falando, afinal?
-Aqui é o Marcelo da Sasse.
-Marcelo?
-Sim, o Marcelo.
-E tu desejas falar com quem, hein?
-Com o Otto, o Superintendente do Escritório de Negócios de Santa Maria, certo?
-Errado! Só um momento Marcelo.
Transfiro, novamente, a ligação para a telefonista.
-Esta ligação não é do Marçal para falar com o Athos, e sim do Marcelo para falar com o Otto. Certo?
-Ah, bom! Só um momentinho...
E segue a telefonista, na sonolenta e morna tarde de outubro.
-Caixxxa Federal, boa tardiiiii! Seu Otto, ligação de Brasília.
-Fala, grande amigo Júlio Rafael!
-Aqui é o Marcelo!
-Mas eu pedi um ligação para o Júlio...
-Caixxxa Federal, boa tardiiiii!
Luiza Tatuagem
Ela entrou exuberante.
Com um trejeito de top model desfilou pelo recinto do penhor. Sentou-se em uma poltrona bem em frente ao meu guichê. Uma fábula, uma tentação, um terrorismo biológico arrasando corações. Loura, esbelta e com um bronzeando de fevereiro em pleno novembro chuvoso.
Após alguns minutos, ao chamar a senha 24, o monumento ambulante encaminha-se em minha direção. De repente aquele World Trade Center humano desaba sobre a banca de atendimento, apoiada apenas nos belos cotovelinhos acastanhados de sol. Os seus maravilhosos olhos verdes, da mais pura reação do ácido clorídrico com o cobre, sorriem para mim.
- Ooooooiiiii!
- Bom dia.
Após analisar os quatro anéis e duas pulseiras, devolvendo-lhe um colar de prata, comunico que pelo prazo desejado ela levaria pelo lote a quantia de R$ 69,00.
- Meia nove?
- Sim, por este lote tu levas R$ 69,00.
- Só meia nove?
- Infelizmente...
- Tudo bem vou fazer o penhor.
Para digitação do cadastro peço a sua documentação: Carteira de identidade, CPF e comprovante de residência. Ao ver a sua carteira verifico que o nome no documento não combinava com a pessoa em minha frente. Antecipadamente ela responde a pergunta que eu ainda não tinha feito.
- Sou eu mesma. Viste os meus cabelos... quanta diferença!
Chamava-se Luiz Valdemar do Couto Barbosa.
No vaivém da conversa contou-me que em sua adolescência havia jogado de quarto-zagueiro no Grêmio Santanense de Livramento. Era conhecido como Parada Barbosa. Nenhum atacante passou incólume pela mais famosa muralha juvenil da fronteira sul do Rio Grande.
Hoje era apenas a Luiza Tatuagem.
- Tatuagem?
- Aqui não é o lugar mais apropriado para eu te mostrar a tatuagem.
- Bom! Luiz... Luiza, por gentileza o teu endereço?
- Eu moro na rua Conde D'Eu, dois meia nove.
- Conde o quê?
- D'Eu, dois meia nove.
- Ah!
Após receber a quantia combinada, levanta-se abruptamente e dá meia volta, seus longos cabelos louros esvoaçam e fazem uma varredura no meu guichê. De súbito, joga o nariz para o alto e se vai exuberante como uma top model desfilando pelo recinto do penhor.
O Vazio
A ausência, quando chega, nos preenche de vazio, nos absorve com o nada e nos abastece de saudade. O vazio desponta na curta distância de tempo entre a aflição e a amargura, e nas recordações que se mantém cada vez mais vivas.
A ausência maltrata quem fica a relembrar e aguçar a memória, indo ao encontro do passado. Dói no coração e sacrifica a alma, angustiando os amigos que estão presentes. Vem cheio de desconfortos e devaneios silenciosos num encontro a sós com soluços suaves de melancolia. É como um buraco negro cheio de universo e imensidão. A saudade não pede licença e não bate à porta, chega sem avisar e nos acompanha nos momentos que nos afligem e nos desmorona perante a vida.
O vazio está na simplicidade da sala, onde comíamos as deliciosas ambrosias e os saborosos doces de abóboras, tomávamos chá com bolachas ou bolos de milho nos finais de tarde. Está no repouso das almofadas sobre o sofá e no silêncio da televisão desligada. Na nostalgia quieta da cozinha onde conversávamos nas manhãs ouvindo o ruído da panela de pressão no seu ofício de cozinhar o feijão. O vazio, ali está, nos ramos de cidreira, marcela e erva doce, nos pacotes de erva para o mate, nos sacos de biscoitos, nas compotas de figo solitárias nos armários e na garrafa de licor, a espera dos paladares insaciáveis nos aniversários ou almoços nos domingos.
O sentimento de vazio está no sossego da velha cômoda, na cristaleira com louças e cristais antigos, nos castiçais no aguardo das velas para orações, nos guardanapos engomados e guardados, nos cobertores sem uso a espera de uma visita, no guarda-roupa com agasalhos intocados aguardando uma ocasião especial e nos perfumes com suas fragrâncias doces aromatizando o interior das dependências. Está nos álbuns antigos, na bengala esquecida atrás da porta do quarto e na foto cinqüentenária amarelada na cabeceira da cama. Sentimos um vazio manifesto nos objetos e móveis que ficaram e que continuarão intocáveis porque uma agressão a lembrança pode nos fazer chorar.
O vazio está na cadeira de balanço solitária num minúsculo compartimento cheio de quietude. No vaivém das agulhas e novelos de lã formando mantas e blusões aquecendo o nosso inverno inclemente. Está nas violetas em pequenos vasos distribuídos sobre o parapeito, nas samambaias vivas e caídas sobre os tripés e nos lírios da paz que simbolizam a nossa serenidade. Nas chamativas pantufas verdes aquecendo as breves caminhadas pelas penumbras dos aposentos. Enquanto a noite avança lentamente com a chuva que cai lá fora, o vazio está no plic plic das goteiras em um balde no meio da varanda e no ruído da água precipitada mansamente sobre o telhado de zinco do galpão.
Sentimos o vazio na Rede Vida na hora da Ave Maria, nas cantigas cristãs do Padre Zezinho, no terço verde esperança presenteado pelos netos, na Santa Ceia adormecida sobre o bidê e na devoção à Santa Rita.
Enfim, o vazio está na ausência, mas também está na saudade duradoura que nos entristece, nos conforta e acalma para prosseguirmos, viandantes, pelas trilhas da vida, com coragem, dedicação, solidariedade e fé.
O Vinho com Vera
O cálice é um límpido cristal e o tinto de um intenso rubi.
Nas parreiras da serra gaúcha, nos vales e nas encostas, sob a cerrada neblina, no limite das velhas cercas, nascem os frutos da nossa terra. E são nas vinícolas, nos casarões centenários, que temos o prazer de desfrutar este nobre produto extraído das videiras.
Os incansáveis imigrantes italianos, com a experiência adquirida dos pais e dos avós, nas mais diversas trilhas dos caminhos desta vida, colocam em nossa mesa de jantar o agradável cabernet sauvignon, produzido no vale dos vinhedos do sul. A pipa é o nobre casulo que dá corpo, aromatiza e sensibiliza este suco divino.
O cálice é um límpido cristal e o tinto de um intenso rubi.
Vera Fischer e Tony Ramos fazem o par romântico num ambiente requintado. Em uma garrafa de um tinto de valor encontram horas de lazer e descontração. Na minha sala, o tinto me acompanha em um encontro solitário com o cabernet. Sigo neste ritual na penumbra da varanda, o vinho roda levemente na circunferência do cálice, meus dedos de aço enlaçam o frágil cristal.
No rubro riacho na noite que se aproxima, o rude sovéu, é o pincel que pinto com vinho tinto a abóbada celeste. Jorro mais vinho no cálice, enquanto lá fora o arroio despenca e gira o moinho, tornando este instante especialmente raro. O vinho nos proporciona encontros saudáveis, com amigos apreciadores da arte milenar da degustação, ou nos momentos de intimidade com familiares. O cabernet é o parceiro das ocasiões especiais quando estamos introspectivos, numa meditação entre os lábios e o cálice, entre o coração e a mente, entre o afago e a saudade.
Brindo à saúde com Vera, ela na novela, eu em minha sala. Neste enquadramento, a vida é eterna na novela e infinita na sala de jantar. A música tema combina com o ambiente aconchegante do restaurante e, conseqüentemente, com o balanço da rede na varanda. Esqueço o Tony e me sirvo mais um cálice. Vera sorri, e impregna a sala com o buquê do seu sorriso. Enquanto isto minha taça descansa na guarda do sofá. Uma propaganda se intromete sem ser convidada e Vera se ausenta por alguns longos minutos. No próximo capítulo quem sorri é Tony, Vera apenas acaricia a borda do copo com água e, meditativa, olha para a transparência do seu profundo bojo.
De repente a novela termina. Vera vai embora. Eu sigo na companhia do cabernet enquanto as letrinhas sobem, sem compromisso, na telinha. Em segundos e para meu desconsolo, Vera não é mais Vera. - É Bussunda!
Finda o encanto, foi-se a última gota. Quebrou-se o cálice. Sobrou um rolha jogada em um canto lúgubre da sala e uma garrafa vazia na estante. Foi-se o aroma do cabernet, no rastro da noite, ao encontro marcado com a solidão.
Desligo a televisão e vou para cama com Isabel Allende.
Leio até altas horas o romance Casa dos Espíritos. Até que o sono me derruba e o livro adormece no chão.
As corruíras do MST
Essa história começa em frente a um estande numa feira de artesanato.
As casinhas de passarinhos para ornamentar quintais e varandas eram belíssimas. Vários tipos e tamanhos. Eram delicadas e cuidadosamente acabadas. A que mais me agradou estava pintada de vermelho. O telhado tinha um verde-musgo intenso. Sendo o preço extremamente acessível, acabei adquirindo uma, imaginando-a enfeitando a parreira do quintal. A casinha rubro-verde ficou alguns dias na despensa, até que arrumei um local na parede do hall de entrada de casa. Uma área cercada, bem protegida e arejada. E a casinha ficou lá, o vermelho e o verde contrastando com o branco da parede.
Alguns dias após observei alguns pequenos gravetos jogados ao chão e ciscos no interior da pequena casa na parede. Foi muito fácil deduzir aquele estranho acontecimento. Um casal de passarinhos havia ocupado aquela minúscula casinha desabitada e pacientemente estava construindo ali o seu ninho. Dia após dia, de sol a sol, traziam os "móveis" para sua nova morada.
Duas ariscas corruíras, possivelmente, com passagem por um acampamento do MST, vieram assentar sua família em minha residência. Invadiram, silenciosa e sorrateiramente, a pequena propriedade. A bem da verdade, não houve violência na ocupação, embora tenha ficado plenamente caracterizado uma invasão de propriedade particular.
Num primeiro momento pensei impetrar, como de direito, a minha reintegração de posse, mais usual providência de quem é proprietário de terras invadidas. Eu, um feliz dono de uma casinha vazia, às voltas com pássaros invasores. Imaginando atitudes mais violentas para reaver a posse da pequena propriedade, acabei comprando o bodoque do filho de um vizinho.
Enfim, desisti da idéia por achar cruel demais com um casal de inofensivos corruíras.
Descartada a repressão aos passarinhos invasores, resolvi subsidiar aquele pequeno assentamento na minha varanda. Comprei um pacote de alpiste, um bebedouro e improvisei uns poleiros ao derredor da ocupação, viabilizando um mínimo de condições para os assentados darem prosseguimento em suas vidas.
Os meus "hóspedes" são camaradas. Dormem logo que anoitece e alegram as auroras com uma alvorada festiva, embora muito cedo da manhã não me sinto incomodado. A convivência é harmoniosa e pacífica com o César, o passarinho do MST, e sua simpática companheira.
Posso dizer que é uma ocupação benquista no meu domicílio.