Nascido em Batatais/SP, em 24 de novembro de 1958, empregado da Caixa, casado, pai de quatro filhos, cultiva o hábito da leitura e tem em Machado de Assis e Dostoyevski os seus escritores preferidos.
Em poesia tem predileção pela obra de Manuel Bandeira.
Não possui nenhuma publicação de seus poemas ou participação em eventos em que fossem mostrados, sendo essa a vez primeira que traz a público alguns trabalhos.
Cento e Onze
A casa dos mortos
Acolhe os seus hóspedes
Abre as suas portas
Para quem quer entrar.
São todos bem-vindos
Não precisa pagar
É insuficiente o espaço,
Mas sobra lugar.
Não se pede referência
Nem convite ou cartão
Entra todo vivente
Sem qualquer contestação.
Ali reina a justiça
Que a todos iguala
Da lei para trapaça
Não há quem se valha.
Na casa dos mortos
Uma fera cativa
Vai sendo consumida
Na dor e na cólera.
Por todos os cantos
Ecoam seus rugidos
Provocam o espanto
No mundo dos vivos.
Com ordem expressa
Vão lá emissários
Promover a devassa
E impor o silêncio.
Trabalhando sem descuido
Instaura-se o pânico
O sangue vai manchando
As paredes do sepulcro.
A platéia cá de fora
Ovaciona extasiada
Finalmente a matança
A vingança consumada.
A casa dos mortos
Estará sempre aberta
Para hóspedes e emissários
Para as visitas da morte.
Descoberta
Se quando te ouço
Olho-te nos olhos
Quero na verdade
Entender o que falas.
Se quando te ouço
Olho-te nos cabelos
Penso mil coisas
A respeito de ti.
Se quando te ouço
Olho-te no nariz
Estou alheio
A tudo que dizes.
Se quando te ouço
Olho-te na boca
Acende-se a chama
Desejo-te nua.
Maria das Dores
Maria das Dores
Das dores alheias
Que cuidas Maria
Com toda brandura.
Fartas-te de alegria
Por seres amparo
Em meio à tormenta
Para quem te procura.
Vives desperta
Sofrendo sem pranto
Tomando para ti
A miséria do outro.
Qual lírio do campo
Que não fia, nem tece
Em ti a bondade
É uma flor inerente.
Sufocaste as paixões
Rindo-se delas
Afirmando-as agora
Vaidade e quimera.
Saudo-te Maria
Sempre das dores
Que curas e alivias
E jamais serão tuas.
Menina Morta
(Clarinha)
Clarinha precisava
Ter vindo aqui
Precisava Clarinha
Tão cedo partir.
Clarinha fica
Na ferida da mãe
Fica Clarinha
Na lembrança do pai.
Clarinha nos ensina
A farsa da ilusão
Ensina-nos Clarinha
Do nada a dimensão.
Clarinha nos revela
Toda nossa impotência
Revela-nos Clarinha
Oração e crença.
Clarinha se mostra
Em sua despedida
Mostra-nos Clarinha
A carinha da vida.
Clarinha desperta
Num reino de luz
Desperta Clarinha
No colinho de Jesus.
Só
Num recanto do meu ser
Um anjo ainda permanece
Silencioso e arredio
Pouco se vê sua face.
Se testemunho sua existência
Não decorre esse fato
De uma concreta convivência
Vibra indelével pressentimento.
Vive há muito comigo
Outrora alegre e constante
À toda hora me vinha
Amigo, menino, confidente.
Uma desatenção, um percalço
Foi vacilando nossa amizade
Ásperos tempos incertos
Fizeram o brilho distante.
Como agora buscá-lo ?
Hesito, falta-me o gesto
Tropeça a fala sincera
Ignoro o que antes sabia.
Fiz de mim um estranho
Que o anjo não reconhece
Prudente retira-se cauteloso
Não de todo, não prá sempre.